- A aspirina pode retardar a propagação dos cânceres de mama, intestino e próstata ao aumentar a capacidade do sistema imunológico de atingir as células cancerígenas.
- Pesquisadores descobriram que a aspirina bloqueia o tromboxano A2 (TXA2), que enfraquece as células T, permitindo que elas ataquem o câncer de forma mais eficaz.
- Estudos anteriores relacionaram o uso de aspirina à redução da mortalidade e recorrência do câncer, mas o mecanismo não estava claro até agora.
- A aspirina pode ser mais eficaz no câncer em estágio inicial, oferecendo uma opção de tratamento com boa relação custo-benefício, especialmente em ambientes de poucos recursos.
- Especialistas alertam contra a automedicação devido a riscos como hemorragia interna, e mais ensaios clínicos são necessários para refinar seu uso.
Em uma reviravolta notável de serendipidade científica, pesquisadores descobriram como a aspirina, um analgésico comum de venda livre, pode ajudar a retardar a propagação de certos tipos de câncer, incluindo mama, intestino e próstata.
A descoberta, publicada na revista Nature, esclarece como o medicamento aumenta a capacidade do sistema imunológico de combater células cancerígenas — uma descoberta que pode levar a tratamentos mais acessíveis e econômicos para pacientes em todo o mundo.
A descoberta veio inesperadamente enquanto cientistas da Universidade de Cambridge estudavam como o sistema imunológico responde ao câncer. Eles descobriram que a aspirina bloqueia uma substância química chamada tromboxano A2 (TXA2), que é produzida pelas plaquetas sanguíneas. O TXA2 enfraquece as células T do corpo, um tipo de célula imunológica crucial para atacar o câncer. Ao inibir o TXA2, a aspirina essencialmente “libera” as células T, permitindo que elas ataquem e destruam as células cancerígenas de forma mais eficaz.
“Foi um momento Eureka”, disse o Dr. Jie Yang, pesquisador líder do estudo. “Nós nem estávamos olhando para a aspirina inicialmente, mas essa descoberta nos colocou em um caminho de investigação completamente novo.”
Uma longa história de potencial
O potencial da aspirina para combater o câncer não é totalmente novo. Estudos anteriores sugeriram seus benefícios. Uma análise de 2021 de mais de 140.000 pacientes com câncer de mama descobriu que o uso regular de aspirina estava associado a uma redução de 31% na mortalidade específica do câncer e uma redução de 9% no risco de recorrência ou metástase. Da mesma forma, um estudo de 2020 mostrou que a aspirina pode reduzir o risco de câncer de cólon em mais de 25%.
No entanto, até agora, o mecanismo por trás desses efeitos permaneceu obscuro. A nova pesquisa não apenas explica como a aspirina funciona, mas também destaca seu potencial para evitar que o câncer se espalhe — um fator crítico na redução de mortes relacionadas ao câncer. A metástase, o processo pelo qual o câncer se espalha para outras partes do corpo, é responsável por 90% das fatalidades por câncer.
Uma janela de oportunidade
O estudo sugere que a aspirina pode ser particularmente eficaz nos estágios iniciais do câncer, quando as células são mais vulneráveis ao ataque imunológico. “Quando o câncer se espalha pela primeira vez, há uma janela terapêutica única de oportunidade”, disse o professor Rahul Roychoudhuri, autor principal do estudo. “Terapias que visam essa janela podem ter um escopo tremendo na prevenção da recorrência.”
Esta descoberta pode fazer da aspirina uma ferramenta valiosa na luta contra o câncer, especialmente em cenários de poucos recursos. “A aspirina, ou outros medicamentos que visam esta via, têm o potencial de ser menos dispendiosos do que terapias baseadas em anticorpos e, portanto, mais acessíveis globalmente”, acrescentou o Dr. Yang.
Mais pesquisas são necessárias
Embora as descobertas sejam promissoras, especialistas alertam contra a automedicação com aspirina. O medicamento não é isento de riscos, incluindo o potencial para sangramento interno e úlceras estomacais. “É importante entender quais pacientes têm mais probabilidade de se beneficiar e sempre conversar com seu médico antes de começar a tomar aspirina”, disse a professora Ruth Langley, que está liderando um ensaio clínico separado sobre os efeitos da aspirina no câncer.
Os próximos passos envolvem ensaios clínicos em larga escala para determinar quais tipos de câncer e populações de pacientes se beneficiariam mais da terapia com aspirina. Os pesquisadores também estão explorando o desenvolvimento de novos medicamentos que imitam os benefícios da aspirina sem seus efeitos colaterais.
Esta descoberta acidental ressalta a importância da pesquisa movida pela curiosidade e o potencial de medicamentos cotidianos terem aplicações que salvam vidas. Embora a aspirina não seja uma cura para tudo, sua capacidade de melhorar a luta do sistema imunológico contra o câncer oferece um vislumbre de esperança para milhões de pacientes em todo o mundo. À medida que os cientistas continuam a desvendar as complexidades do câncer e do sistema imunológico, o papel da aspirina nesta batalha pode provar ser um divisor de águas — uma pequena pílula de cada vez.
Fonte: https://www.newstarget.com/2025-03-10-aspirin-may-halt-spread-of-cancers-study.html