Cinco décadas de evidências sobre danos iatrogênicos
“Sou ativista da segurança do paciente há 14 anos, desde a morte do meu filho de 19 anos devido a cuidados profundamente desinformados e antiéticos na cidade universitária onde ele estudava. Em 2013, escrevi um artigo fundamental publicado no Journal of Patient Safety, no qual estimei que 440.000 americanos morrem prematuramente a cada ano devido a eventos evitáveis iniciados em hospitais.”
—John T. James, Ph.D.
“Como país, não reconhecemos o problema endémico de pessoas que morrem devido aos cuidados que recebem, em vez da doença ou lesão pela qual procuram cuidados.”
—Martin Makary, MD, MPH, Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins
“É a pressão pública que provoca mudanças. Os hospitais não têm incentivo para divulgar erros; nem os médicos ou qualquer outro prestador de serviços.”
—Jim Rickert, MD

Por quase meio século, um crescente corpo de pesquisas vem silenciosamente acumulando um quadro perturbador da medicina moderna. Embora o sistema de saúde seja justamente celebrado por suas intervenções que salvam vidas (cirurgias de emergência, diagnósticos avançados, etc.), uma literatura paralela tem documentado uma realidade mais sombria: a própria assistência médica é uma das principais causas de morte nos Estados Unidos.
As evidências não são novas. Elas remontam a um artigo de 1974 do Journal of the American Medical Association, que alertava para dezenas de milhares de mortes anuais induzidas por medicamentos, e a um estudo de 2016 do British Medical Journal, que concluiu que o erro médico é a terceira principal causa de morte nos Estados Unidos. Entre esses dois extremos, o Instituto de Medicina, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos e inúmeros pesquisadores independentes têm constatado consistentemente que danos evitáveis em ambientes de saúde matam entre 44.000 e mais de 400.000 americanos a cada ano.
Esses números não são meramente acadêmicos. Eles representam pacientes reais — pessoas que entraram em hospitais, casas de repouso e consultórios médicos em busca de cura, apenas para serem prejudicadas ou mortas pelo próprio sistema criado para ajudá-las. As causas são diversas: reações adversas a medicamentos, erros cirúrgicos, infecções hospitalares, erros de medicação, procedimentos desnecessários e as complicações em cascata de doenças iatrogênicas.
Apesar de décadas de documentação, as estatísticas oficiais de mortalidade dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) não listam “erro médico” ou “reação adversa a medicamentos” como causas de morte. O sistema de codificação usado para certidões de óbito foi projetado para faturamento, não para registrar danos iatrogênicos ou as complexas cadeias causais que levam à morte. Como resultado, essas mortes são atribuídas às doenças subjacentes que estavam sendo tratadas, fazendo com que os problemas de saúde subjacentes desapareçam da conscientização da saúde pública e da priorização de políticas. O paciente que morre de desnutrição em um asilo é contabilizado como uma morte por demência. O paciente cuja deficiência de vitamina D não diagnosticada contribuiu para uma queda fatal é contabilizado como um acidente. O paciente cuja arritmia induzida por medicamento causa parada cardíaca é contabilizado como uma morte por doença cardíaca.
O que se segue é um resumo cronológico das principais conclusões de importantes estudos publicados entre 1974 e 2022. Em conjunto, eles pintam um quadro inequívoco: o sistema médico americano, apesar de todos os seus avanços, continua sendo uma causa significativa e subestimada de mortes evitáveis — e a forma como monitoramos a mortalidade oculta ativamente essa realidade.
Resumo das principais conclusões do estudo
1974 – Talley & Laventurier, Jornal da Associação Médica Americana
Constatação: Estima-se que ocorram entre 60.000 e 140.000 mortes anualmente devido a reações adversas a medicamentos (RAMs).
Significado: Este foi um dos primeiros alertas importantes sobre a mortalidade induzida por medicamentos. Os autores observaram explicitamente que sua estimativa era “provavelmente extremamente conservadora”, pois não possuíam dados que mensurassem mortes induzidas por medicamentos em populações ambulatoriais (pacientes externos) e de cuidados prolongados. Em outras palavras, o número real de mortes provavelmente era muito maior mesmo naquela época.
1996 – Johnson & Bootman, Journal of Managed Care Pharmacy
Constatação: As mortes decorrentes de problemas relacionados a drogas (PRD) variaram de 79.000 a 198.815 por ano.
Significado: Esta análise confirmou que o problema identificado em 1974 não havia diminuído. A ampla variação reflete diferentes abordagens metodológicas, mas mesmo a estimativa mais baixa excedeu muitas causas de morte reconhecidas. O estudo ajudou a estabelecer a mortalidade relacionada a drogas como uma crise persistente e de grande escala na saúde pública.
1999 – Instituto de Medicina, “Errar é humano”.
Constatação: Pelo menos 44.000 a 98.000 americanos morrem a cada ano em decorrência de erros médicos. Usando a estimativa mais baixa, as mortes por erros médicos superam as causadas por acidentes de trânsito (43.458), câncer de mama (42.297) e AIDS (16.516).
Significado: Este relatório histórico trouxe a segurança do paciente para o centro das atenções nacionais. Pela primeira vez, um prestigiado órgão consultivo federal declarou que os erros médicos não eram anomalias raras, mas sim uma das principais causas de morte. O título do relatório — “Errar é Humano” — enquadrou o problema não como incompetência individual, mas como uma falha sistêmica que exigia soluções sistêmicas. Ele catalisou a pesquisa e as políticas de segurança do paciente, embora estudos subsequentes tenham demonstrado que o progresso permaneceu frustrantemente lento.
2000 – Starfield, Jornal da Associação Médica Americana
Constatação: Um levantamento abrangente de mortes iatrogênicas (causadas por razões médicas) totalizou 225.000 por ano, provenientes de:
- 000 devido a cirurgias desnecessárias
- 000 mortes por erros de medicação em hospitais
- 000 decorrentes de outros erros em hospitais
- 000 por infecções nosocomiais (adquiridas em ambiente hospitalar)
- 000 decorrentes de efeitos adversos não relacionados a erros de medicação
Significado: A análise de Starfield foi uma síntese marcante, combinando múltiplas categorias de danos em uma única estimativa. Ela desafiou diretamente a noção de que o sistema de saúde dos EUA era “o melhor do mundo” (a pergunta do título). Ao demonstrar que as mortes iatrogênicas, por si só, rivalizavam com doenças cardíacas e câncer como principais causas de morte, Starfield forçou um acerto de contas com a discrepância entre a autoimagem da medicina e seu desempenho real.
2010 – Departamento de Saúde e Serviços Humanos, “Eventos Adversos em Hospitais”.
Constatação: Entre os beneficiários do Medicare, 1,5% sofreram um evento que contribuiu para o óbito. Isso corresponde a 15.000 pacientes em um único mês — ou aproximadamente 180.000 mortes por ano.
Significado: Este não foi um estudo independente, mas sim um relatório do governo federal. O fato de 180.000 pacientes do Medicare (extrapolando para o ano todo) terem sofrido eventos adversos fatais durante a internação hospitalar representou o reconhecimento oficial de um problema sistêmico.
2013 – Light et al., The Journal of Law, Medicine & Ethics
Constatação:
- 2,7 milhões de americanos hospitalizados sofrem uma reação adversa grave a medicamentos anualmente.
- 0,32% dos pacientes hospitalizados morrem devido a reações adversas a medicamentos — aproximadamente 128.000 pacientes hospitalizados anualmente, o que a classificaria como a 4ª principal causa de morte, empatada com o AVC.
- Uma análise baseada nas recomendações da FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) identificou 2,1 milhões de lesões graves, incluindo 128 mil mortes de pacientes.
- Uma em cada cinco novas entidades moleculares (novos medicamentos) acaba por causar danos suficientemente graves para justificar um alerta severo ou a sua retirada do mercado.
- Entre os medicamentos prioritários analisados em cronogramas acelerados, pelo menos um em cada três causou danos graves.
Significado: Este estudo mudou o foco dos erros médicos em geral para os danos causados por medicamentos especificamente. A descoberta de que 20% dos novos medicamentos acabam se mostrando perigosos o suficiente para exigirem alertas de tarja preta ou sua retirada do mercado é uma acusação contundente contra o sistema de aprovação e farmacovigilância de medicamentos. Os autores enquadraram isso explicitamente como “corrupção institucional”, argumentando que a influência da indústria farmacêutica sobre a regulamentação, a pesquisa e a prática clínica prioriza sistematicamente o acesso ao mercado em detrimento da segurança do paciente.
Continua…
Fonte: https://romanbystrianyk.substack.com/p/the-hidden-toll-of-modern-medicine
